Refletir com antecedência. É bastante comum que no dia a dia a gente se depare com dilemas éticos, mas nem sempre tenhamos a oportunidade de refletir devidamente sobre eles. Quando falamos da área da saúde isso é especialmente crítico. Mas e se tivéssemos a oportunidade de dedicar um tempo a refletir sobre tais questões, seja sobre casos específicos ou hipotéticos, de modo que ao nos depararmos com aquela situação, estejamos mais preparados para lidar com elas? Essa é a ideia por trás dos Diálogos de Bioética, um encontro que ocorre desde 2016 na Fundação e que, nas palavras do prof. Adriano Bechara, um dos mediadores do evento, se propõe a “refletir por meio do diálogo, construindo um referencial de valores para lidar com situações concretas”, destacando que “o profissional que busca a reflexão se torna ainda mais sensível e seu posicionamento com o outro vai além da compaixão”.
Boas iniciativas geram boas iniciativas. Os Diálogos de Bioética são um feliz desdobramento do Grupo de Estudos de Humanidades, Saúde e Infância, sobre o qual já falamos por aqui. Em determinado momento, o Dr. José Luiz sugeriu que o último encontro do mês fosse dedicado especificamente à bioética, e nesse formato trariam um convidado para expor sobre o tema escolhido, sempre intercalando reflexões mais teóricas e casos clínicos. E a importância dessa complementaridade é explicada abaixo pelo cientista social Marcos Paulo de Lucca-Silveira:
É um grande aprendizado para nós e para todos que acompanham, pois você pode refletir abstratamente, olhando essas questões teóricas de uma maneira que só olhar casos clínicos não possibilitaria. Mas também acontece o inverso. Você olha casos clínicos, aprende com eles, reflete sobre a tomada de decisão de casos específicos, para depois voltar a olhar questões mais abstratas, sempre fazendo esse movimento.
Núcleo de Bioética. Após vários anos realizando os Diálogos de Bioética surgiu a ideia de criar um Núcleo de Bioética na Fundação, dedicado a reflexões principalmente teóricas sobre o tema. O grupo é formado pelo prof. Adriano Bechara e por dois palestrantes dos Diálogos de Bioética: o cientista político Marcos Paulo de Lucca-Silveira (posteriormente diretor de pesquisa do Departamento de Pesquisa em Ciências Sociais da Saúde e Filantropia, e hoje Chief Strategy Officer da FJLS) e pelo professor de filosofia João Cortese. E trago as palavras do próprio João destacando o diferencial desse grupo:
Quando a gente fala em pesquisa no Brasil, dependendo da área, isso se dá quase exclusivamente nas universidades públicas, por meio de centros de pesquisas, e começamos agora a ver algumas instituições de ensino privado investindo um pouco mais em pesquisa. Mas tende a ser uma raridade que exista um núcleo de pesquisa em bioética em uma instituição privada. Sempre percebemos que as pessoas recebem com uma boa surpresa o fato de o Núcleo de Bioética da Fundação existir.
Novas oportunidades, novos desafios éticos. O avanço da medicina, em grande parte pela incorporação de tecnologias, traz novas possibilidades de tratamentos para casos que antes não tinham solução. É importante que se busque por esses novos tratamentos e que eles sejam oferecidos aos pacientes, mas também que, para além dos benefícios que trazem, possamos lidar com os dilemas éticos que seu uso representa, e esses temas são constantemente levados aos Diálogos de Bioética e/ou estudados pelo Núcleo de Bioética. Assim, o uso de tecnologias como inteligência artificial e telemedicina, além de temas como pandemia e vacinação, prolongamento da vida, cuidados paliativos e judicialização da saúde ganham espaço nesses encontros.
No caso da pediatria, e especialmente no caso do Sabará, que é um hospital de referência que atende casos cada vez mais complexos, os dilemas surgem pela própria possibilidade de tratamento. Como explica o João Cortese:
Há casos de crianças, às vezes de bebês, que se tivessem nascido há 50 anos simplesmente teriam morrido muito mais cedo. Hoje em dia, a medicina consegue salvar as crianças. Isso é muito bom. Mas isso também vai trazendo questões sobre como as vidas dessas crianças podem ser tratadas. Estou falando de casos extremos, quando a qualidade de vida entra na balança além do próprio êxito do cuidado para que a criança continue viva, com sinais vitais.
Para refletir ainda mais. Atualmente, o Núcleo de Bioética é responsável pela moderação dos Diálogos de Bioética, que orgulhosamente conta com mais de 90 edições e que hoje junta-se a outras iniciativas da FJLS que levam a discussão sobre o tema para diferentes públicos – seja por meio de publicações, seja de outros encontros ou eventos, com destaque para o Simpósio de Bioética, que ocorre no Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil a cada dois anos. Afinal, em todos os espaços onde se fala de saúde a discussão sobre bioética é mais do que necessária!