Em meados de 2017, quando Keith Ribeiro foi pela primeira vez à casa de Cassio, então com três anos de idade, o garoto tinha parado de comer, chorava muito e se recusava a ir à escola.

Com deficiência auditiva desde que nasceu, o menino, uma irmã e um irmão adolescentes eram criados só pela mãe, a manicure Lívia.

Quando o irmão, que era sua única referência masculina, foi internado na Fundação Casa, Cassio regrediu psicologicamente.

Keith passou a se reunir com a família toda semana, como visitadora do programa Criança Feliz, no município de Arujá (Grande São Paulo). O foco era fortalecer o vínculo afetivo entre o menino, a mãe e a irmã. As atividades também visavam incentivar a estimulação verbal de Cássio.

“Como ele gostava muito de animais, levava figuras e histórias a partir das quais eles pudessem conversar”, diz Keith.

Hoje, aos cinco anos, Cassio nomeia bichos como “cachorro”, “vaca” e “cavalo” e tenta formar frases. Também pronuncia claramente a palavra “escola”, que voltou a frequentar: ele está no jardim 2.

Lançado em 2016, o programa de visitação domiciliar do governo federal atende, hoje, 600 mil gestantes e crianças, como Cassio, e é considerado um dos maiores nesse estilo no mundo. Mas não é uma iniciativa isolada no Brasil.

À medida em que crescem as evidências da importância dos investimentos na primeira infância, fase que vai de 0 a 6 anos, outros projetos ganham força no país.

Há desde programas locais consolidados, como o Primeira Infância Melhor (PIM, no Rio Grande do Sul), até experimentos, como um que acaba de ser concluído no Ceará, por meio de uma parceria entre o Banco Mundial e o governo estadual.

A Fiesp (Federação da Indústria do Estado de São Paulo) lançou recentemente o Projeto Empresários pela Primeira Infância, em parceria com a Fundação José Luiz Egydio Setúbal.

A iniciativa, que está em fase incipiente, buscará ajudar a mapear a situação das crianças de 0 a 6 anos no Brasil e treinar técnicos para apoiar ações das empresas nessa área.

“Os investimentos na primeira infância são os mais duradouros, trazem ganhos que se estendem pela vida toda”, diz Ely Harasawa, secretária nacional de Promoção do Desenvolvimento Humano do Ministério da Cidadania.

Partindo desse mesmo diagnóstico, a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) —onde Ely trabalhou entre 2010 e 2015— se dedica, há mais de uma década, a desenvolver projetos que aumentem a estimulação adequada das crianças.

Entre as ações que a instituição desenvolve atualmente, está uma pesquisa em Boa Vista (RR) em parceria com a prefeitura e a Fundação da Faculdade de Medicina da USP.

A iniciativa envolve visitas domiciliares e reuniões de grupos nos Cras (Centros de Referência de Assistência Social). Iniciado em 2017, o projeto deve alcançar 9.600 crianças até 2021, quando será feita a avaliação de impacto.

“Inúmeros programas mostram que o olhar para duas gerações, a dos pais e a dos filhos, pode ser muito efetivo para a ruptura dos ciclos de baixo desenvolvimento”, diz Marina Fragata Chicaro, gerente de conhecimento aplicado da FMCSV.

As afirmações de Ely e Marina são referendadas, principalmente, pela pesquisa seminal de James Heckman, que já era um economista consagrado —vencedor do Nobel da área em 2000— quando começou a desvendar a ligação entre a primeira infância e a desigualdade social.

O acadêmico traduziu em números o que especialistas em primeira infância já percebiam: o estímulo adequado nos primeiros anos de vida pode alterar o rumo de crianças que, sem essa atenção, estariam destinadas a perpetuar a história de pobreza de suas famílias.

Um dos cálculos de Heckman e seus coautores mostra que cada US$ 1 investido no desenvolvimento infantil gera rendimento anual (descontada a inflação) de 8% a 10% no futuro, contra 5% das aplicações no mercado de capitais.

A medição foi feita a partir da comparação do desempenho de adultos que, quando crianças, participaram de programas de desenvolvimento infantil voltados a famílias pobres com o de outros com características similares que não foram alvos de iniciativas.

Os indivíduos do primeiro grupo tiveram melhores resultados escolares, salários mais altos, menor envolvimento com criminalidade e menor dependência de serviços sociais. Tudo isso entrou na equação do retorno futuro de Heckman.

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Autores: Ana Estela de Sousa Pinto, Érica Fraga
Fonte: Folha de São Paulo