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Viagem Fantástica 2022 – Um memorial para as crianças vítimas de covid-19

Publicado em: 08/11/2022

Por: Dr. José Luiz Setúbal

No dia 15 de outubro, a Fundação José Luiz Egydio Setúbal (FJLES) realizou a sua 4ª Viagem Fantástica, uma ação de voluntariado institucional que ocorre desde 2017, sempre com muito sucesso.

Nesse ano, a viagem nos levou até o Grajaú, bairro da zona sul de São Paulo, onde o Índice de Desenvolvimento Humano é dos mais baixos da capital. Fomos até o Instituto Anchieta Grajaú, uma instituição de 28 anos que, como nós, se dedica a melhorar a vida das crianças. Nossa missão? Plantar 5 mil mudas de árvores da Mata Atlântica, em sua maioria frutíferas e com flores, para criar um bosque em memória às crianças e adolescentes que morreram vítimas de covid-19 durante a pandemia. A ideia partiu de um movimento global chamado ‘Healing Trees’, ao qual a FJLES se juntou.

O Healing Trees é uma ação colaborativa que une a sociedade para homenagear aqueles que morreram de covid-19, por meio do plantio de mais de 5 milhões de árvores em todo o mundo. O movimento é liderado pela San Ramón Carbon Neutral Foundation, da Costa Rica e seu objetivo é que instituições de diferentes partes do mundo criem um memorial para entes queridos que não estão mais conosco e vivam um processo para curar nossas feridas.

Essa pandemia nos mostrou o quanto dependemos uns dos outros e o quanto somos frágeis. Infelizmente, a covid-19 nos fez perder mais de 5 milhões de pessoas, independentemente de idade, raça, classe social, religião, país ou sexo.

Com o crescimento da árvore, destacamos também a relação indissociável das pessoas com o planeta, como um sinal de respeito às vítimas do vírus e um compromisso com as gerações futuras. Queremos unir a sociedade no plantio de árvores, mas também no cuidado para garantir que tenham uma vida longa.

Com tudo isso em mente, mais de 300 pessoas se juntaram em um sábado de muita chuva para plantar cerca de mil árvores frutíferas como jabuticaba, laranjinhas do mato, abil, cambuci, pitanga, entre outras que formarão um memorial de 5 mil árvores.

O projeto não acaba aí, daqui a alguns anos, quando essas árvores estiverem produzindo frutas, iniciaremos dois outros projetos com essa comunidade. O primeiro é o de nutrição, onde nossas nutricionistas ensinarão como utilizar essas frutas no dia a dia e na dieta da escola que tem no local. O segundo projeto é o de geração de renda com o produto das frutas, não só in natura, mas em outras formas, com mais valor agregado, como geleias e doces.

Tudo isso é muito legal, mas nessa mesma semana, nosso presidente afirmou que não houve óbitos de crianças em decorrência da covid-19 no Brasil. Desde 2020, quase 5 mil crianças entre 0 e 18 anos morreram por complicações da doença no país. Bolsonaro deu a declaração durante entrevista a alguns canais do Youtube.

No dia seguinte da Viagem Fantástica, saiu a notícia: “A cada 2 dias, 1 criança com menos de 5 anos morre de covid no Brasil; grupo está sem vacina da Pfizer e governo não tem previsão para imunização”. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou a vacinação com a Pfizer para crianças a partir dos seis meses, mas o governo restringiu o uso só para quem tem comorbidades. Além disso, Bolsonaro voltou a espalhar desinformação sobre o tema.

Como se pode ver, os números desmentem declarações recentes do presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, que disse: “A molecada não sofre com o vírus” e servem de base para críticas de especialistas contra a demora do Ministério da Saúde em liberar a vacina para essa faixa etária, mesmo já tendo o aval da Anvisa.

Só entre 4 de setembro e 1º de outubro, 437 crianças foram hospitalizadas por complicações da covid-19 no Brasil. Nesse período, 17 mortes pela doença foram registradas entre menores de cinco anos.

Parte das crianças entre 6 meses e 2 anos e 11 meses continuam sem nenhuma vacina contra a Covid disponível nos postos de saúde. O Brasil tem hoje doses da Coronavac para crianças a partir dos 3 anos e da Pfizer para a faixa etária de 5 a 11 anos. Após quase um mês da aprovação da Anvisa, o governo federal ainda não dá prazo para chegada das doses e para início da aplicação da vacina da Pfizer para crianças de 6 meses a 4 anos, mesmo com um contrato em vigor com a farmacêutica para fornecimento de vacinas até o final deste ano. Desde o início da campanha de vacinação contra a Covid, em janeiro de 2021, o Ministério da Saúde nunca demorou tanto para tomar uma decisão sobre a incorporação e aplicação de uma vacina para o público infantil como acontece agora. O silencio do ministro e do Ministério da Saúde é ENSURDECEDOR.

As taxas de vacinação contra a covid-19 em crianças e adolescentes continuam muito baixas e essas notícias e campanhas feitas pelo presidente não ajudam em nada. Enquanto isso, 16 crianças morrem por mês, em média. Daqui a pouco, nosso bosque precisará ser aumentado, pois as cinco mil árvores não serão mais suficientes para homenagear todas as vítimas dessa doença prevenível por vacina.

Nossa Fundação não se conforma que vidas de crianças se percam porque nossos governantes não se esforçam em disponibilizar vacinas que as protejam e que fazem parte do Plano Nacional de Imunização (PNI) e, muito menos, com um presidente que espalha notícias falsas e faz campanha contra vacinas. A sociedade devia se manifestar contra isso.

Escrito por:
Dr. José Luiz Setúbal
Presidente da FJLES

Confira abaixo as fotos da ação: