Evento da Fundação José Luiz Egydio Setúbal reúne especialistas para tratar de temas urgentes da nossa sociedade

 

São Paulo, 08 de dezembro de 2020Aconteceu na manhã desta terça-feira, na capital paulista, a segunda edição do Fórum para Políticas Públicas em Saúde na Infância, promovido pela Fundação José Luiz Egydio Setúbal. A plateia era restrita, seguindo os protocolos de segurança impostos pela pandemia, e a maioria da audiência acompanhou as discussões ao vivo pelo Youtube. No centro do debate, três temas essenciais para garantir um futuro pleno às crianças brasileiras: imunizações, saúde mental e segurança alimentar. Para quem não pode acompanhar, o conteúdo está disponível em https://url.gratis/xBBy5

Conduzido pela jornalista especializada em saúde Natalia Cuminale, o fórum reuniu autoridades destas três áreas. Quem não estava no palco, fez sua apresentação virtual por um telão e interagiu com os espectadores. Logo na abertura, em seu discurso, José Luiz Egydio Setúbal (presidente da FJLES) foi contundente em afirmar que a política nacional está aumentando as desigualdades e nos colocando numa perspectiva sombria, se a sociedade não se mobilizar pelo contrário.

“Áreas importantes como educação e saúde estão sendo desestruturadas e corpos técnicos competentes dispensados e substituídos por pessoas pouco afeitas a estas funções. Devemos temer pelo futuro de nossas crianças e adolescentes e, por consequência, de nosso país. Enquanto isso acontece, as lideranças dos três poderes e dos mais diversos partidos brigam e brincam sem se importar com o futuro de nossa nação, pensando mais uma vez de forma egoísta no seu projeto de poder”, disse Setúbal.

O primeiro painelista do dia foi Juarez Cunha, pediatra e Presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Ele é um dos autores do white paperQueda nas coberturas vacinais – causas e propostas para revertê-la’ escrito especialmente para este fórum e que em breve estará disponível para leitura no site https://fundacaojles.org.br/ juntamente com os outros dois trabalhos dos temas centrais do encontro. Na mesma discussão estava Renato Kfouri, Pediatra e Presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Cunha fez um retrospecto histórico da tradição vacinal no país, uma vez que fomos referência em erradicar doenças e hoje sofremos com a sombra da desinformação e da polarização, cobrando um preço caro, ou seja: vidas que se perdem. Soma-se a isso a falta de percepção de risco, dificuldade de acesso, baixo engajamento de médicos e demais profissionais da saúde, além de uma crise de confiança nas vacinas.

No longo caminho que precisamos percorrer para voltar a vacinar um número maior de brasileiros, os especialistas apontam saídas: aprimorar a gestão do PNI (Programa Nacional de Imunizações); as parcerias (tanto com as escolas onde estão as crianças quanto outras organizações); o engajamento dos profissionais de saúde; o cumprimento da legislação, e uma estratégia de comunicação mais assertiva para fazer frente às fake news.

O segundo tema debatido foi a saúde mental de nosso jovens e crianças, ancorado por Christian Kieling, Psiquiatra e professor UFRGS. Ele é um dos autores do white paper ‘Saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil: evidências para ação’. Na sua participação virtual diretamente do Rio Grande do Sul, apontou os primeiros anos de vida como a grande janela de oportunidades para se tratar os transtornos de ansiedade e conduta. Uma vez que “não existe saúde sem saúde mental”, há que se exigir um reposicionamento dos projetos públicos com maior atenção à infância e adolescência. Além disso, ainda há um estigma rondando todo o tipo de transtorno, e preconceito inclusive entre a classe médica.

Neste ponto, o alerta de que um número baixo de profissionais de saúde se interessa pelos problemas mentais infantis é feito por Jair Mari, psiquiatra e chefe do Departamento de Psiquiatria e Psicologia da UNIFESP, e também debatedor. Além disso, José Luiz Setúbal salienta que poucos médicos sabem hoje enxergar o transtorno mental, enquanto é mais fácil apenas interpretar o sintoma como birra ou manha da criança. Ele ainda afirmou que a formação dos profissionais de saúde precisa se aprimorar neste sentido, uma vez que os problemas mentais são um dos principais desafios do século 21.

O terceiro e último painel foi conduzido por Mauro Fisberg, pediatra, nutrólogo e coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi. Ele é um dos autores do paper ‘Subnutrição à Obesidade: uma alternativa integrativa de prevenção de problemas nutricionais’, escrito especialmente para este fórum. Alguns dados mostrados na sua exposição são alarmantes, como o número imenso de crianças que logo nos primeiros meses de vida ingerem produtos ultraprocessados. Mesmo com atenção à saúde da criança constando em diversos programas e políticas públicas desenvolvidos ao longo das décadas, as carências nutricionais seguem sendo a tônica da mortalidade infantil no nosso país.

Entretanto, Fisberg garante que, apesar de todas as deficiências, temos os recursos possíveis para reverter este cenário como abundância de alimentos, gente e capital.  A solução estaria num sistema integrado de agentes que se relacionem, entre sociedade civil e governo. Neste ponto, Maria Paula de Albuquerque – nutróloga e diretora clínica do CREN/UNIFESP comunga da mesma opinião e ressalta que “políticas públicas já existem, o que precisa é serem executadas”.

O painel também foi composto por Flavia Mori Sarti, economista, nutróloga e Professora Associada da EACH-USP. Na sua visão, falta “valorizar a base, a linha de frente, os profissionais da educação básica”. Ou seja: aqueles professores que estão diariamente em contato com as crianças em sala de aula e deve ensiná-los sobre a importância da boa alimentação.